sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sobre mudanças (e por que minhas lágrimas não caem)

Essa sim é uma postagem jeito blog de ser, contando sobre experiências e expectativas, prevendo futuros e chorando passado. Eu tenho mais 3 trabalhos pra fazer, mas eles que me perdoem: o final do semestre pode esperar e eu estou exausta.

Faz 5 anos que saí pela porta de casa com todo o conforto e comodidades de ter alguém sempre fazendo tudo por mim. Faz 5 anos que vivo uma vida maluca de conhecer gente, de se apaixonar e desapaixonar, de consolar e receber colo de quem menos se espera, de crescer como pessoa e aprender a resolver minhas próprias tretas. Faz 5 anos que aprendi a reparar em detalhes (talvez isso já faça quase 25, mas andei me aprimorando ultimamente), a encontrar refúgio quando os trovões estrondam do lado de fora, a rir descontroladamente quando não posso controlar as coisas e a me divertir mesmo quando tudo parece caos. Faz 5 longos anos que sou engolida por compromissos com a graduação, em busca de um dos sonhos de criança, em busca de algo que não sei explicar ao certo, mas que me chama todas as manhãs pra dançar, tentando me dar esperança na caminhada e forças pra cumprir propósitos.

Sempre me recusei a viver por mim mesma. Sempre recusei aquilo que todos buscam. Poucos me entendem, eu mesma me questiono muitas vezes. Minha vida ainda segue um rumo nublado, com dois caminhos distintos a seguir, mas sigo de braços abertos e lutando para cada um deles. Confesso que o primeiro é uma jornada solitária e difícil, mas todas as vezes que embarquei em viagens assim inesperadamente encontrei tanta gente... Quem sabe do futuro, não é mesmo?

Essa jornada de aprendizado só serviu pra abrir meus olhos de diversas maneiras, pra conhecer pessoas completamente diferentes que vivem os mesmos dramas, pra conhecer pessoas extremamente parecidas que vivem dramas diferentes. Ai gente, a vida é um negócio tão doido né? Tanta gente cruza o nosso caminho e vai deixando marcas, vai modificando, ensinando, amando. É uma correria louca que seria insuportável não fossem as pessoas que conheci.

Por amar ouvir e compartilhar histórias, agora me encontro aqui, com um vazio bem grande no peito esperando pela mudança que não chega. Aliás, que chega rápida e sorrateira, não me deixando perceber o quão drástica ela será. Minha racionalidade não me permite chorar: foram tantos anos de drama adolescente, de sofrimento enclausurado e lágrimas incessantes que agora, quase com um quarto de século na vida, minhas lágrimas não caem mais.

Depois de muito tempo entendendo que sentimentos fazem a vida um pouco mais complicada acabei me tornando muito mais racional. E prática. Muito raramente minha razão solta as rédeas. Eu sabia que essa mudança chegaria, sabia que os ecos do apartamento vazio fariam com que meu peito apertasse, e, contraditoriamente, sei que assim que o aperto vier as lágrimas vão cair. Descontroladamente. Não vai ser bonito, eu não sou o tipo de pessoa "ah, que fofa que ela fica chorando". Definitivamente não.

Juro que queria corresponder às lágrimas que me seriam de direito. Ao choro não fingido pra expressar saudade, expressar gratidão, pra expressar sentimento. Sei que todos passaremos por muitas outras mudanças na vida então passei a enxergar os quadros maiores. Os anos futuros, os anos que se passaram, a oportunidade aproveitada e desperdiçada, as risadas e os perrengues. Aquele sentimento de eternidade que é colocado nosso coração, que Salomão tanto fala. Ele sabia que a vida é um grande repetir-se de momentos (chega de momento em viga, concreto me traumatizou), de maneiras semelhantes, em contínuo movimento: às vezes enfadonho, por vezes cansativo, mas, se a gente aprender a prestar atenção, a repetição toma uma cor bonita. Única. Especial.

Sim, hoje eu estou sensível. Bem como nas últimas semanas. Já dizia Roberto Carlos: são tantas emoções, bicho. Não estou sabendo lidar! É um misto gigantesco de felicidade e tristeza, de saudade e esperança, ai... Queria me despedir bonitinha e séria, então calma!

Eu não tenho lágrimas nos meus olhos, mas invariavelmente, meu peito está cheio de sentimentos balizados pela razão e minhas palavras não me abandonam. Essas mesmas, gastas, repetidas e daquele jeito que você já conhece. Acho que tenho probleminhas, mas continuo a escrever por que meus dedos não param, não cansam de transformar sentimentos em palavras. Minhas lágrimas vêm em forma de letras.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Carta aberta à amiga que vai casar

Primeiramente, gostaria de dizer que sim, esta carta tem o propósito de te fazer chorar, então busca o lencinho. Segundamente, quero dizer que tive que tirar esse tempinho no fim do semestre pra falar sobre o ano que irá mudar as nossas vidas de maneiras muito diferentes.

Amiga, você sabe que a jornada de um relacionamento a dois não é nada fácil. Você fez questão de ter os melhores conselhos na manga todas as vezes que eu surtava sobre o assunto. Você fez questão de sempre trazer esperança pro meu coração quando tudo o que restava nele era confusão. Seus conselhos sempre funcionaram como uma bússola, adequando minhas preocupações à realidade. Não sei bem como, mas sua vida virou uma parte da minha também, suas dores e aflições também foram minhas e as minhas foram suas... E foi assim devagarinho que ganhamos espaço uma no coração da outra.

Amiga, você vai se casar! Parecia tão longe, a aliança dourada de compromisso de noivado causou tanto estranhamento e agora ela vai pra mão certa e você vai tomar uma das decisões mais importantes da sua vida. Você imaginava que a gente fosse amadurecer tanto e tão rápido? Onde estão aquelas bixetes que não sabiam onde ficavam os prédios da universidade? Que eram atrapalhadas nos laboratórios? Nós deixamos de ser adolescentes faz muito tempo mas nunca deixamos de rir de algumas tragédias, tirando o peso delas dos nossos ombros. Estamos vislumbrando os 30 com simplicidade de crianças, o que mais poderíamos pedir?

Eu sei que você está preocupada se tudo vai dar certo no grande dia, se não terão imprevistos e se você vai sobreviver até lá. Mas amiga, lembra de todos os perrengues que você já venceu? Todos os dias muito ruins que ficaram no passado? Pois então, esses dias de correria e estresse vão ficar pra história e a gente vai rir muito deles assim como o balão de fundo redondo e a escada do cadeirante.

Não posso te prometer que não vou chorar. Vai ser muita felicidade te ver ali, de noivinha lindíssima caminhando pra realização de um sonho ao lado do amor da sua vida. Meus desejos de felicidade não vão encontrar palavras, então provavelmente se tornarão lágrimas e eu lembrarei de toda a sua história, de toda a sua trajetória até ali. Talvez um dia eu tenha o privilégio de viver uma história tão bonita quanto a sua e então sei que você chorará horrores se eu vier a ser uma noivinha, afinal, não é justo que você me faça chorar desse jeito e saia impune disso. 

Não posso deixar de dizer também que continuarei aqui. Sempre inexperiente sobre assuntos novos, mas com dois ouvidos bem grandes e aconchegantes pra ouvir tudo o que quiser compartilhar. Preciso te dizer que não vai ser fácil mudar de vida por que já passei por isso. Mas dê tempo. Sorria. Encare a mudança com leveza, dê uma choradinha de saudade da velha vida e segue em frente. Eu tenho certeza que as mudanças serão um choque mas você vai amar tanto o que está por vir! Lembre-se que a gente sempre viveu por propósitos maiores e que tudo o que acontece coopera pro nosso bem e pro nosso crescimento. Qualquer dificuldade ou insegurança que você venha a ter vai te levar mais longe, vai te fazer crescer e se tornar mais forte do que já é e eu tenho certeza de que você escolheu uma pessoa ótima pra te acompanhar nessa jornada de crescimento.

Eu te admiro pelo seu comprometimento com tudo o que se propõe a fazer e te admiro mais ainda por saber quando está na hora de procurar colo. O meu sempre estará disponível, assim como todo o meu amor e os meus votos de felicidade. Nunca se esqueça que temos Aquele amor em comum, o maior de todos eles, e que Ele cuida de nós.

Obrigada por compartilhar a vida comigo e me deixar sem janta,
aguardo convites futuros pra reparar essa mancada.

De sua amiga que estava te devendo um texto,
Marola.

sábado, 10 de junho de 2017

Uma geração que esqueceu de amadurecer

Nós somos a geração que está cada vez mais perdida entre os sonhos dos nossos pais e os nossos próprios, entre sobrecargas ridículas e caminhos despedaçados que escolhemos seguir. Nós somos a geração que, de fato, não sabe se deve casar ou comprar uma bicicleta. Para nossos pais foi fácil escolher: em pouquíssimo tempo de casamento já havia um chorinho de criança dentro de casa. Nós não queremos filhos imediatamente, queremos estabelecer padrões de vida e queremos mais etiquetas; estamos ávidos buscando cada vez mais conforto. No outro extremo, estamos cada vez mais acomodados, indispostos a arriscar nossas próprias cabeças em prol daquilo que acreditamos.

Nós somos a geração que muda de ideia a cada novo lançamento, a geração que tem déficit de atenção nos relacionamentos, a geração que esqueceu que tem gente passando frio e fome na rua agora. Nós somos a geração que vive em função do fim de semana e vive de segunda a quinta em modo zumbi. Passamos mais da metade do nosso tempo diante de telas, comparando vidas perfeitas e reclamando em como esse país não vai pra frente enquanto pagamos pra outro fazer o trabalho da faculdade. É, meu filho, nós somos uma geração de gente mesquinha. Nós fazemos uma birra danada quando as coisas não acontecem do jeito que queremos: a única diferença da infância é que a gente não se joga mais no chão do supermercado. Nossos pais só pensavam na gente, mimavam a gente, davam tudo o que a gente queria e nos transformaram em pequenos monstrinhos.

Mas não se desespere. Esse mundo é grande demais pra acomodar só desgracera. É certo que não quero ser conhecida pela minha incapacidade de lidar com frustrações. Não quero torcer o nariz se minhas vontades não forem todas satisfeitas, amém. Não vai ser minha a vida que se disfarça de liberdade quando na verdade é escravidão, com um chicote elegante que amansa mais do que machuca.

Não se engana, amigo, eu também me sinto perdida no caminho às vezes. Achei que ao final da faculdade fosse fácil identificar os próximos passos, mas te conto um segredo: só piora. Aproveita seu tempo pra cuidar de gente, pra aprender com quem é diferente de você, pra ouvir histórias de gente mais experiente, pare de se cobrar tanto. Vai comer seu doce, vai tomar aquele café com seus amigos. Pelo amor de alguma coisa que você realmente ame: para de ser preconceituoso. Para de querer ser o dono da razão (viu, Marola?).

Aprende a enfrentar tudo aquilo que te deixa aterrorizado. Se você, assim como eu, às vezes teme o futuro e tem uma ansiedade danada que tudo se encaixe nos quadradinhos certos em algum momento da vida, não se anseie tanto. Às vezes a gente tinha que virar as peças no Tetris pra encaixar, lembra? Aprende a gostar de você sem precisar de aprovação alheia. Também aprende a mudar tudo o que precisa mudar e para de ser teimoso. Aceita também que cada um tem uma dificuldade, inclusive você. DESENVOLVE EMPATIA, POR FAVOR. Descobre aquilo que te faz palpitar, que te tira o fôlego, que te apaixona sempre. Vai fazer trabalho voluntário por que o mundo está precisando. Aprende a começar a amar pelos defeitos, eu te garanto que é um barato e você nunca mais vai conseguir amar de outro jeito. Ensina pra esse povo que diz que a gente não presta pra nada que a gente presta sim e está fazendo. Ninguém aqui nasceu pra ter a bunda quadrada de sofá.

Vai, meu filho, vai com Deus que o mundo é grande demais pra olhar pro próprio umbigo e ficar chorando por besteira. Vai, meu filho, voa. Para de querer complicar o que é simples. Fala pra ela que você não para de pensar nela. Chora sua dor, compartilha ela que diminui. Amadurece e me dá a mão nessa caminhada por que não precisamos ir sozinhos. Alegria só é real se compartilhada. licença poética pra terminar com citação de Into the wild, câmbio desligo 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Matemática do Reino - Morada

Na matemática do Reino,
é no dividir que nasce a multiplicação
de paz, alegria, pão, amor.
Na subtração do próprio eu
o mais lindo e desmerecido favor .

Se o menos é mais,
o mais dele em mim nunca é saciado.
Quanto mais dele eu tenho
sou mais necessitado.
A soma do amor foi tão grande
que multiplicaram-se as feridas.
Subtraiu-se a alegria
dividiram-se as companhias
determinando sozinho o valor da morte.
E o resultado? Vida.

Somando todos os meus acertos
não conseguiria eu agregar valor ao perfeito
para que se desse inicio a essa equação de amor.
Na matemática do reino
o perfeito se humanizou,
me chamou de volta,
se alegrou,
correu pra porta,
me abraçou todo sujo, não importa!

Mesmo depois que exigi minha parte,
pedi pra dividir,
voltei a zero e encontrei tudo ali
exatamente igual a quando eu sai.

Se a ordem dos fatores não altera o produto
fico mudo.
Meus acertos não acrescentam amor,
meus erros não o diminuem,
minha falha correu pro teu favor
e o que já foi sequidão hoje flui.

Na soma dos meus pecados
não dividiu o fardo,
ao contrario,
tomou sozinho sobre si.

Diante de olhos curiosos, diminuía.
Na otica divina
cumpria, crescia.
Me chamou pra viver na Terra
mas com os olhos fitados no alto.
Sussurrar paz aos que gritam guerra,
ser flor que brota no asfalto.

Caminhar em um mundo caído
carregando valiosos princípios,
invertido.

Dividindo o pão, multiplicando a paz.
Matematicamente no reino,
menos é mais.

(Esse não é meu, mas é extremamente necessário compartilhar! Fica a dica do álbum "Uma coisa" do Morada. Tem no Spotify e é muito amor. ❤️)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Liberta-me

Liberta-me da minha aparência.
Preciso aprender a viver com menos, não sou aquilo que possuo.
Não me amas pela cor do batom ou pela etiqueta da roupa.
Não se compadece pela fatura do cartão de crédito nem pelo livro debaixo do braço.
Não são os brados de aprovação alheia
Nem meu complexo de inferioridade que me definem.
Liberta-me, não quero estar cativa em celas tão bonitas e sombrias.

Liberta-me da minha teimosia.
Preciso aprender a aceitar novos jeitos de resolver as coisas, não sou a dona da razão.
Não me amas por que é minha a ideia de ouro que salva o dia ou por que penso estar sempre certa.
Não se compadece pela minha arrogância nem pelo peso acumulado por mim mesma.
Não são as coroas
Nem os fracassos que me definem.
Liberta-me, não quero estar cativa em celas tão mesquinhas e perigosas.

Liberta-me do meu coração.
Preciso aprender a confiar em Você ao invés de mim, não sou capaz de entender o futuro.
Não me amas pela capacidade que tenho em criar expectativas ou pela frustração de cada uma delas.
Não se compadece pelos meus desejos passageiros nem pelas minhas alegrias momentâneas.
Não são os momentos de falsa liberdade
Nem os choros descontrolados e escondidos que me definem.
Liberta-me, não quero estar cativa em celas tão antigas e enganosas.

Liberta-me para que eu possa enfim voltar pra casa.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ele me deu 13 razões pra acreditar

A primeira razão apareceu quando ele se voluntariou para um plano, o que já existia antes que qualquer outra coisa existisse e que trouxe esperança à humanidade, mas especialmente ao meu coração.

A segunda razão foi pela atenção que teve comigo. Sempre, inevitavelmente, TODAS as vezes que clamei por socorro era o abraço dele que eu sentia. Todas as vezes em que o mundo todo estava cansado de me escutar eram seus os ouvidos que estavam atentos às minhas palavras.

A terceira razão foi por ele ser sempre tão inusitado. Eu nunca poderia prever seu comportamento em situações polêmicas. Ele virou a mesa quando percebeu que a ganância de alguns homens era maior que sua fé. Ele acolheu gente esquecida pelos outros. Ele gostava de gente esquisita e me ensinou a gostar deles também. Ele alimentou uma multidão com um pouquinho de comida que um menino tinha entregado, mas principalmente alimentou o coração de uma multidão que estava esfomeada há décadas...

A quarta razão foi por ele reconhecer minhas necessidades antes mesmo que eu pedisse. Era como se ele enxergasse no meu silêncio a extrema urgência que tinha de me sentir amada novamente.

A quinta razão foi a forma como ele me enxergava. Ele sabia de todos os meus erros e de cada detalhe ruim sobre mim. Ele sentia cada um dos meus sentimentos maus, ele sabia que eu queria vingança, que invejava, que era grosseira pelo simples prazer de ser. Mas pra mim era impossível contemplar suas atitudes sem reconhecer que algum tipo de luz inacreditável brilhava sobre ele. E de alguma forma ele fez com que brilhasse sobre mim também, me enxergando de maneira diferente do resto do mundo.

A sexta razão foi por ter dado sabor à minha vida. Suas palavras eram como o sal: através daqueles ensinamentos tudo o que vivia tinha um gosto diferente. Era possível suportar amargas discussões sabendo que poderia senti-las de outra maneira.

A sétima razão foi por se fazer amigo. Sua presença não demandava ganhos, não exigia recompensas. Ele simplesmente estava ali. Era seu prazer sentar-se do meu lado e ouvir minhas histórias mesmo que já soubesse de todas elas nos mínimos detalhes. Era sua alegria acompanhar meu crescimento pessoal e eram suas as lágrimas quando eu me machucava. Ele não estava alheio ao meu sofrimento. Ele estava do meu lado o tempo todo.

A oitava razão foi quando entendi a morte dele numa cruz. Ainda escuto sua respiração ofegante enquanto ele se lembrava de mim. Ainda posso sentir seus ombros cansados e sobrecarregados, seus pulmões se dilacerando em meio aquela agonia. Ele carregou aquela cruz pra mim, quando eu ainda não o conhecia. Ele carregou aquela cruz por mim por que sabia que eu não a suportaria. Ele a carregou quando eu ainda zombava do seu sofrimento. Quando eu era uma de suas razões para morrer.

A nona razão estava em seu sangue. Era através dele que minha certidão de nascimento fora modificada. Antes dele eu era apenas mais um número em registros amarelados de um cartório qualquer. Depois do sangue tornei-me cidadã de outro lugar... Um lugar em que não me sinto estrangeira. A pátria que sempre sonhei.

A décima razão foi a própria razão, que ele mesmo me ensinou. Não atribui tantas razões apenas por me sentir de um jeito ou de outro: as encontrei por serem lógicas para mim. Por serem exatas. Por serem profundas. Por trazerem um sentido jamais antes alcançado, não por me fazerem chorar em meio a multidões e espetáculos montados. A décima razão era a própria razão que falava comigo enquanto eu cantava sozinha. Enquanto eu não sabia me expressar com palavras. Enquanto tudo o que restava era um aperto inconsolável no meu coração e uma agonia profunda. Enquanto eu andava pelas ruas e percebia o quão distante eu estava do meu verdadeiro lar e por que eu nunca me sentiria completa fora dele. Eram em todos esses momentos que a própria razão ecoa a dentro de mim como um sino, piscava ao longe como um farol alertando à marinheira que havia rochedos pelo caminho e era necessário ajustar a rota.

A décima primeira razão veio quando ele me mostrou o que eu poderia fazer. Não sozinha, mas debaixo de sua orientação. Ele me mostrou que poderia usar as palavras pra curar corações partidos. Mostrou-me que era o seu reflexo quando eu entendia a dor alheia e a amenizava. Essa razão sempre me deixou atribuir a ele esses momentos e agradece-lo por me ajudar a ser mais parecida com ele.

A décima segunda razão era simples. Eu voltei a acreditar por que ele acreditou em mim primeiro. Ele me viu quando eu era invisível.

A última razão, a razão derradeira de me fazer acreditar, foi também a primeira. Em seu plano de me trazer de volta ao lar ele me amou. Antes de tudo, antes que eu soubesse o que era amar, antes que eu viesse me transformar em quem sou hoje. Seu plano era me amar. Seu plano era certificar-se que eu estaria junto dele além do tempo, além das angústias, além de qualquer dor e rancor que houvessem nessa existência. A derradeira razão era o Amor. O maior deles. Pago com cruz, com morte, sofrimento e sangue. Quitado. Justificado.

Querida Hannah, queria que você tivesse experimentado um pouco desse amor. Queria ter sido o reflexo desse amor em sua vida. De maneira constante, presente e intensa, como ele tem sido pra mim. Hoje foi um dia triste, Hannah... Lembrei-me do sofrimento dele e do seu. Lembrei-me do sofrimento de tantos outros como você, mas especialmente dos insultos que ele suportou e que de alguma forma se identificavam com os seus. Com os meus. Ele sabe. Ele te acompanha ainda que você não perceba a companhia dele. Deixe-me te dizer uma coisa Hannah... Você é importante e amada por ele. Nenhum sofrimento é impossível de cura através do seu amor. Por isso te conto minhas 13 razões, Hannah. Por que amanhã é dia de celebrar a vitória da morte e entender que ele não é apenas uma historinha, mas uma esperança avassaladora pra quem entende e vive cada uma dessas razões.

sábado, 1 de abril de 2017

Combinação de variáveis aleatórias

Eu sei que você vai amar todas as teorias de expansão do universo e de viagens intergaláticas assim como eu, mas talvez entenda melhor o que elas representam e como funcionam. Ficção científica será um dos seus gêneros favoritos e a gente vai marcar uma data anual pra assistir Matrix. E Poderoso Chefão. Todos eles legendados, é claro.

Eu sei, minhas discussões mais profundas sobre os temas mais polêmicos serão com você na mesa de jantar. Eu brigarei ferozmente pela minha opinião enquanto lavo as louças acumuladas na pia. Entraremos em crise existencial vez ou outra por percebemos quão velhos estaremos e como o tempo passa rápido. Você quer ser pra sempre a minha companhia pro jantar?

As nossas conversas sobre educação, sociedade e cultura serão elaboradas. Quando você começar a falar de política com tanta propriedade eu serei apenas ouvinte, soltando todos os clichês possíveis sobre o assunto por ter uma enorme preguiça de aprender algo nessa área.

Talvez você pense nas linhas e padrões comuns e seja minha a responsabilidade de te tirar da caixinha. Sei que apesar de toda a sua teimosia você sempre estará aberto a novas possibilidades embasadas pelo meu super poder de convencimento. Ou pela minha insistência. Ou ainda pela minha desistência.

Eu sei que você vai entender que o meu jeito de amar é demonstrar carinho e que eu entendo outros jeitos. Não sei como será o seu, mas pra mim o contato será imprescindível. Com o tempo entenderá que as minhas ambições não serão os presentes caros nem você se matar pra ganhar dinheiro. Você vai compartilhar a ideia de uma casinha, um carro que funcione e um trabalho que sirva a outros primeiro. Talvez sua ideia de servir aos outros inclua adoção no pacote. Sei que vai entender que eu vou sim guardar flores e bilhetes de cinema por que são as coisas mais simples que tem mais valor.

Eu sei que você vai ter a coragem de assumir seus sentimentos e eu serei a primeira pessoa a saber quando estiver confuso ou triste. Também sei que serei seu suporte, seu engaste, te explicando claramente o que é e por que eu bombei tantas matérias relacionadas a ele.

Sei que serão todos os seus toques que me satisfarão e me farão sentir completamente mulher, mesmo quando, no início, ainda tiver vergonha de me entregar.

Eu preciso que você saiba que vou ser dramática. O tempo todo. Eu vou ficar deprimida com frequência e vou comer quantidades absurdas de doce às vezes. Tá tudo bem, são válvulas de escape. Eu também vou escrever. Existirão milhares de cadernos, lápis e canetas espalhados pela casa. Quando eu estiver com a cara de seriedade olhando pro computador ou digitando freneticamente você já sabe que entrei na bolha. Fique tranquilo, foi apenas um jeito que descobri de fugir da realidade.

Também preciso te contar que canto. Enlouqueço se ficar alguns dias sem música. Os outros dizem que eu sou boa, mas nunca acreditei completamente nisso... Eu desafino em casa. Eu erro a letra e começo a rir. Se eu comecei a cantar na sua frente sem necessidade, sinta-se especial por que não faço isso com todo mundo não. Não é forçado, sou eu. Mas é claro que você vai saber disso, assim como vai entender cada careta espontânea que SEMPRE aparece no meu rosto em horas inapropriadas. E provavelmente terei sempre o cabelo curto, você precisa aceitar isso, ou melhor ainda: amar isso! 

Na minha mente você não é obsessivo. Não persegue uma ideia até a exaustão e esquece de viver por conta dela. Eu sei que você vai entender que dificuldades são necessárias às vezes e vamos passar por elas se estressando ou sendo sensatos. Prefiro a sensatez (mesmo não sabendo bem controlar o estresse): já tenho cabelos brancos demais!

Eu sempre esperei que você fosse absurdamente alto e tivesse um rosto quadrado. Eu não sei se vai dar pra acertar o prumo da parede com o seu maxilar mas tudo bem. Não sei se você vai ser cabeludo ou ter barba. Espero que você tenha nariz de italiano, daqueles bem caracteristicos que são claramente notados em um rosto. Também espero uma voz suave, que eu possa ouvir o dia todo, 24 horas por dia sem me cansar.

Não sei se você tem um nome, se você existe, se um dia esse texto vai ter sentido. Sei que essas são variáveis aleatórias demais para serem todas encontradas em uma mesma pessoa mas,  no fim das contas, eu sou bem aleatória também. No fim das contas se você entender o quem é o Amor, o que Ele representa e se conseguir colocar o que aprendeu em em prática, tá tudo certo. Se você não existir, também tá tudo certo. Continuo aleatória, mandando cartas pra desconhecidos online, esperando que alguém remotamente se identifique e compartilhe histórias. Ah... eu amo histórias! Quanto mais aleatórias melhor!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Antes das flores

Antes das flores, enxergue-me. Assim como Jesus enxergou toda a história daquela mulher que, ao meio dia, em pleno sol escaldante, envergonhada, buscava água no poço. Aquela mulher que se espanta com a cortesia de um homem desconhecido que consegue enxergá-la além do que seu estereótipo lhe dizia naquele momento, transformando sua sede em fonte. Enxergue-me a ponto de conhecer toda a minha história, podendo me oferecer uma alternativa aos meus medos e inseguranças.

Antes das flores, escute-me. Assim como Moisés escutou a argumentação daquelas cinco mulheres (Maalá, Noa, Hogia, Milca e Tirza) que pleiteavam seus direitos e pela primeira vez na história, através de palavras sensatas (e do favor de um Deus considerado machista por muitos), garantiram às mulheres daquele povo o direito à herança de seus pais. Escute-me quando clamo pelos meus direitos. Escute-me quando sou sensata. Escute-me quando apresento razões suficientes para mudanças.

Antes das flores, sinta-me. Assim como aquela mulher que foi sentida em meio à multidão e curada de sua doença que a consumia há anos. Sinta a minha fé, sinta a minha persistência. Veja em meus olhos que não consigo mais me esconder entre a multidão, que é necessário sair da minha zona de conforto para que me reconheçam. Sinta-me e insista para que eu me identifique como sou: mulher.

Antes das flores, perdoe-me. Assim como Jesus perdoa a mulher que é trazida a ele por que adulterou. Deixe suas pedras e julgamentos e consulte a própria consciência. Sente-se no chão e continue a escrever na terra, trazendo-me o espanto por me sentir valorizada, ainda que saiba que eu tenha errado. Despeça-se de mim sem condenações, oriente-me a não errar mais.

Antes das flores, encontre-me. Assim como o rei Lemuel procura a mulher virtuosa descrita por sua mãe. A mulher que é muito mais valiosa do que as riquezas da terra. A mulher que é sim independente, que sai para negociar e lucra, mas não pela força nem pela chantagem e sim pelas palavras e gestos agradáveis. A mulher que diz palavras sensatas, que se veste bem mas que também enxerga as necessidades do próximo. A mulher que planeja o futuro e não fica de braços cruzados por que sabe que, apesar de ter o coração em paz, é o seu trabalho que a louvará e o seu procedimento será o testemunho de sua conduta.

Antes das flores, respeite-me. Jamais acreditei que isso fosse algo que necessitasse ser dito, mas é.

Depois disso, ame-me e só então me dê flores. E se aceita um conselho final, mude um pouco: estamos cansadas de receber rosas vermelhas...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Os sinos

De longe ouço o eco dos sinos colocados em meu coração. Parece um som abafado e distante mas os ecos propagados dentro de mim ainda fazem barulho vez ou outra. As paredes do coração ainda retinem os sons dos sinos insistentes.

Aquele velho sino, empoeirado, enferrujado e o primeiro de todos a dar o ar da graça com suas notas agudas, é enorme e incrivelmente barulhento. Carrega as primeiras ofensas e felizmente não retrata mais nenhum rosto, somente os ecos das palavras indelicadas. Ecoa distante e silencia todas as vezes que olho no espelho e tenho a certeza de que aquelas palavras eram mentiras.

Outro sino, constante, insistente, me diz que não sou capaz. Que nunca faço nada direito, exalta minha incompetência. Retine dizendo que sou um fardo a ser carregado. Esse sino não ecoa mais, tive que escalar sua corda em meio a todos os barulhos ensurdecedores que me rodeavam e cortei-a. Era perigoso demais deixá-la a vista, ao alcance das minhas mãos...

O sino da rejeição, da mágoa de não ter sido digna de esforço, de não ser alguém especial, de não se sentir interessante ecoa sem parar. Suas notas são graves e barulhentas e servem de base para descrença que vem misturada a esses sons. Esse sino ainda ecoa vez ou outra, mas troco a descrença por inspiração e esperança e a melodia se transforma em algo harmonioso e cheio de vida ao invés de desespero.

Por fim, o sino barulhentíssimo do desinteresse, do descompromisso, do desafio de limites alheios soa sem parar. Julgamentos inexatos e maldosos surgem pra fazer com que suas notas tornem a melodia insuportável.

Aprendi a sentar embaixo de todos os sinos e observá-los. O barulho seria ensurdecedor se eu os tocasse de uma só vez. Decidi não me aproximar das cordas, evitando a tentação de balançá-las. Aprendi a não reviver velhos ecos, deixando-os livres para ecoarem na eternidade em forma de uma nova melodia.

Ah os sinos... tenho uma coleção deles, no entanto, aquele "está consumado" soa mais alto do que qualquer coleção particular de sinos egoístas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O não, teus braços e minha birra

Todas as vezes que os teus NÃOS ecoam nos meus ouvidos começo a agir feito uma criança mimada. Diante de um pedido tão importante aos meus olhos, a reação parecia inevitável. Bato os pés, me jogo no chão e choro repentinamente, fazendo um escândalo, uma tempestade em copo d'água.

Eu quero! Quero agora! Nesse momento!

Com todo o amor que eu jamais conseguiria entender, você me abraça e diz que vai ficar tudo bem. Meus braços inquietos te machucam, meus gritos ecoam nos seus ouvidos e minhas pernas se debatem em agonia na tentativa de que o momento de contrariedade passe mais rápido. Mas o teu abraço, que não consigo sentir enquanto estou em desespero, me envolve. Teu rosto inabalável olha pra mim como a criança que sou e diz que vai ficar tudo bem.

Aos poucos meu soluçar abaixa o tom, aos poucos meu coração desacelera, aos poucos vou me soltando e me desarmo: apenas os teus braços são capazes de me segurar.

"Mas era o meu sonho, era tão bom pra mim!"

Teus olhos fixos nos meus me mostram a verdade que eu jamais ousaria questionar. E então, como criança, sigo sem entender o motivo do não. Aos meus olhos aquilo é simplesmente um abuso de autoridade, uma maldade gigantesca diante de um simples desejo tão puro do meu coração de menina.

Com o passar dos anos, ainda me recordo do não. Ainda lembro quando sumi entre as prateleiras cheias de escolhas e me perdi de você. Estava diante daquilo, atraída por toda aquela beleza, estendendo as mãos como quem recebe o mais precioso dos tesouros, aproveitando cada centímetro de conquista da novidade mas absolutamente alheia aos perigos que ela trazia, exatamente como criança. Distraída. Focada apenas naquele momento, esquecendo de todo o resto. No entanto, com o seu amor tão irresistível, você me chamou de volta. Me abraçou e disse meu nome.

"Sossega criança, você não pode estar no controle de tudo. Deixa que eu decido o que é melhor pra você agora."

Espero, como criança, que um dia entenda o não. Que um dia entenda por que meu coração trapaceou e me enganou mais uma vez, enquanto eu desejava algo que nem sequer estava nos meus planos desejar. Espero que um dia eu me encontre novamente em frente à mesma prateleira e que possa dizer sem medo que o impedimento para que eu me lançasse ao desconhecido desejo do meu coração foi a melhor opção. Foi para meu bem. Sei que a ferida causada por um breve período de tempo cicatriza muito rápido, mas a ferida imputada todos os dias corrói lentamente as esperanças de cicatrização.

Não há dúvidas em meu coração e muito menos em minha razão de que você me ama. De que estará ali para cuidar de mim, mesmo que eu decida agir como criança mimada e descontente: sei que os teus braços estarão ali pra me segurar.  O coração angustiado é sempre o mais sincero e o menos racional nas orações, mas é aí que entram os teus braços... Ah, os teus braços estarão ali, todas as vezes que eu me dispuser a correr na direção deles e é sempre o teu olhar de amor que me traz de volta à razão.