sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ele me deu 13 razões pra acreditar

A primeira razão apareceu quando ele se voluntariou para um plano, o que já existia antes que qualquer outra coisa existisse e que trouxe esperança à humanidade, mas especialmente ao meu coração.

A segunda razão foi pela atenção que teve comigo. Sempre, inevitavelmente, TODAS as vezes que clamei por socorro era o abraço dele que eu sentia. Todas as vezes em que o mundo todo estava cansado de me escutar eram seus os ouvidos que estavam atentos às minhas palavras.

A terceira razão foi por ele ser sempre tão inusitado. Eu nunca poderia prever seu comportamento em situações polêmicas. Ele virou a mesa quando percebeu que a ganância de alguns homens era maior que sua fé. Ele acolheu gente esquecida pelos outros. Ele gostava de gente esquisita e me ensinou a gostar deles também. Ele alimentou uma multidão com um pouquinho de comida que um menino tinha entregado, mas principalmente alimentou o coração de uma multidão que estava esfomeada há décadas...

A quarta razão foi por ele reconhecer minhas necessidades antes mesmo que eu pedisse. Era como se ele enxergasse no meu silêncio a extrema urgência que tinha de me sentir amada novamente.

A quinta razão foi a forma como ele me enxergava. Ele sabia de todos os meus erros e de cada detalhe ruim sobre mim. Ele sentia cada um dos meus sentimentos maus, ele sabia que eu queria vingança, que invejava, que era grosseira pelo simples prazer de ser. Mas pra mim era impossível contemplar suas atitudes sem reconhecer que algum tipo de luz inacreditável brilhava sobre ele. E de alguma forma ele fez com que brilhasse sobre mim também, me enxergando de maneira diferente do resto do mundo.

A sexta razão foi por ter dado sabor à minha vida. Suas palavras eram como o sal: através daqueles ensinamentos tudo o que vivia tinha um gosto diferente. Era possível suportar amargas discussões sabendo que poderia senti-las de outra maneira.

A sétima razão foi por se fazer amigo. Sua presença não demandava ganhos, não exigia recompensas. Ele simplesmente estava ali. Era seu prazer sentar-se do meu lado e ouvir minhas histórias mesmo que já soubesse de todas elas nos mínimos detalhes. Era sua alegria acompanhar meu crescimento pessoal e eram suas as lágrimas quando eu me machucava. Ele não estava alheio ao meu sofrimento. Ele estava do meu lado o tempo todo.

A oitava razão foi quando entendi a morte dele numa cruz. Ainda escuto sua respiração ofegante enquanto ele se lembrava de mim. Ainda posso sentir seus ombros cansados e sobrecarregados, seus pulmões se dilacerando em meio aquela agonia. Ele carregou aquela cruz pra mim, quando eu ainda não o conhecia. Ele carregou aquela cruz por mim por que sabia que eu não a suportaria. Ele a carregou quando eu ainda zombava do seu sofrimento. Quando eu era uma de suas razões para morrer.

A nona razão estava em seu sangue. Era através dele que minha certidão de nascimento fora modificada. Antes dele eu era apenas mais um número em registros amarelados de um cartório qualquer. Depois do sangue tornei-me cidadã de outro lugar... Um lugar em que não me sinto estrangeira. A pátria que sempre sonhei.

A décima razão foi a própria razão, que ele mesmo me ensinou. Não atribui tantas razões apenas por me sentir de um jeito ou de outro: as encontrei por serem lógicas para mim. Por serem exatas. Por serem profundas. Por trazerem um sentido jamais antes alcançado, não por me fazerem chorar em meio a multidões e espetáculos montados. A décima razão era a própria razão que falava comigo enquanto eu cantava sozinha. Enquanto eu não sabia me expressar com palavras. Enquanto tudo o que restava era um aperto inconsolável no meu coração e uma agonia profunda. Enquanto eu andava pelas ruas e percebia o quão distante eu estava do meu verdadeiro lar e por que eu nunca me sentiria completa fora dele. Eram em todos esses momentos que a própria razão ecoa a dentro de mim como um sino, piscava ao longe como um farol alertando à marinheira que havia rochedos pelo caminho e era necessário ajustar a rota.

A décima primeira razão veio quando ele me mostrou o que eu poderia fazer. Não sozinha, mas debaixo de sua orientação. Ele me mostrou que poderia usar as palavras pra curar corações partidos. Mostrou-me que era o seu reflexo quando eu entendia a dor alheia e a amenizava. Essa razão sempre me deixou atribuir a ele esses momentos e agradece-lo por me ajudar a ser mais parecida com ele.

A décima segunda razão era simples. Eu voltei a acreditar por que ele acreditou em mim primeiro. Ele me viu quando eu era invisível.

A última razão, a razão derradeira de me fazer acreditar, foi também a primeira. Em seu plano de me trazer de volta ao lar ele me amou. Antes de tudo, antes que eu soubesse o que era amar, antes que eu viesse me transformar em quem sou hoje. Seu plano era me amar. Seu plano era certificar-se que eu estaria junto dele além do tempo, além das angústias, além de qualquer dor e rancor que houvessem nessa existência. A derradeira razão era o Amor. O maior deles. Pago com cruz, com morte, sofrimento e sangue. Quitado. Justificado.

Querida Hannah, queria que você tivesse experimentado um pouco desse amor. Queria ter sido o reflexo desse amor em sua vida. De maneira constante, presente e intensa, como ele tem sido pra mim. Hoje foi um dia triste, Hannah... Lembrei-me do sofrimento dele e do seu. Lembrei-me do sofrimento de tantos outros como você, mas especialmente dos insultos que ele suportou e que de alguma forma se identificavam com os seus. Com os meus. Ele sabe. Ele te acompanha ainda que você não perceba a companhia dele. Deixe-me te dizer uma coisa Hannah... Você é importante e amada por ele. Nenhum sofrimento é impossível de cura através do seu amor. Por isso te conto minhas 13 razões, Hannah. Por que amanhã é dia de celebrar a vitória da morte e entender que ele não é apenas uma historinha, mas uma esperança avassaladora pra quem entende e vive cada uma dessas razões.

sábado, 1 de abril de 2017

Combinação de variáveis aleatórias

Eu sei que você vai amar todas as teorias de expansão do universo e de viagens intergaláticas assim como eu, mas talvez entenda melhor o que elas representam e como funcionam. Ficção científica será um dos seus gêneros favoritos e a gente vai marcar uma data anual pra assistir Matrix. E Poderoso Chefão. Todos eles legendados, é claro.

Eu sei, minhas discussões mais profundas sobre os temas mais polêmicos serão com você na mesa de jantar. Eu brigarei ferozmente pela minha opinião enquanto lavo as louças acumuladas na pia. Entraremos em crise existencial vez ou outra por percebemos quão velhos estaremos e como o tempo passa rápido. Você quer ser pra sempre a minha companhia pro jantar?

As nossas conversas sobre educação, sociedade e cultura serão elaboradas. Quando você começar a falar de política com tanta propriedade eu serei apenas ouvinte, soltando todos os clichês possíveis sobre o assunto por ter uma enorme preguiça de aprender algo nessa área.

Talvez você pense nas linhas e padrões comuns e seja minha a responsabilidade de te tirar da caixinha. Sei que apesar de toda a sua teimosia você sempre estará aberto a novas possibilidades embasadas pelo meu super poder de convencimento. Ou pela minha insistência. Ou ainda pela minha desistência.

Eu sei que você vai entender que o meu jeito de amar é demonstrar carinho e que eu entendo outros jeitos. Não sei como será o seu, mas pra mim o contato será imprescindível. Com o tempo entenderá que as minhas ambições não serão os presentes caros nem você se matar pra ganhar dinheiro. Você vai compartilhar a ideia de uma casinha, um carro que funcione e um trabalho que sirva a outros primeiro. Talvez sua ideia de servir aos outros inclua adoção no pacote. Sei que vai entender que eu vou sim guardar flores e bilhetes de cinema por que são as coisas mais simples que tem mais valor.

Eu sei que você vai ter a coragem de assumir seus sentimentos e eu serei a primeira pessoa a saber quando estiver confuso ou triste. Também sei que serei seu suporte, seu engaste, te explicando claramente o que é e por que eu bombei tantas matérias relacionadas a ele.

Sei que serão todos os seus toques que me satisfarão e me farão sentir completamente mulher, mesmo quando, no início, ainda tiver vergonha de me entregar.

Eu preciso que você saiba que vou ser dramática. O tempo todo. Eu vou ficar deprimida com frequência e vou comer quantidades absurdas de doce às vezes. Tá tudo bem, são válvulas de escape. Eu também vou escrever. Existirão milhares de cadernos, lápis e canetas espalhados pela casa. Quando eu estiver com a cara de seriedade olhando pro computador ou digitando freneticamente você já sabe que entrei na bolha. Fique tranquilo, foi apenas um jeito que descobri de fugir da realidade.

Também preciso te contar que canto. Enlouqueço se ficar alguns dias sem música. Os outros dizem que eu sou boa, mas nunca acreditei completamente nisso... Eu desafino em casa. Eu erro a letra e começo a rir. Se eu comecei a cantar na sua frente sem necessidade, sinta-se especial por que não faço isso com todo mundo não. Não é forçado, sou eu. Mas é claro que você vai saber disso, assim como vai entender cada careta espontânea que SEMPRE aparece no meu rosto em horas inapropriadas. E provavelmente terei sempre o cabelo curto, você precisa aceitar isso, ou melhor ainda: amar isso! 

Na minha mente você não é obsessivo. Não persegue uma ideia até a exaustão e esquece de viver por conta dela. Eu sei que você vai entender que dificuldades são necessárias às vezes e vamos passar por elas se estressando ou sendo sensatos. Prefiro a sensatez (mesmo não sabendo bem controlar o estresse): já tenho cabelos brancos demais!

Eu sempre esperei que você fosse absurdamente alto e tivesse um rosto quadrado. Eu não sei se vai dar pra acertar o prumo da parede com o seu maxilar mas tudo bem. Não sei se você vai ser cabeludo ou ter barba. Espero que você tenha nariz de italiano, daqueles bem caracteristicos que são claramente notados em um rosto. Também espero uma voz suave, que eu possa ouvir o dia todo, 24 horas por dia sem me cansar.

Não sei se você tem um nome, se você existe, se um dia esse texto vai ter sentido. Sei que essas são variáveis aleatórias demais para serem todas encontradas em uma mesma pessoa mas,  no fim das contas, eu sou bem aleatória também. No fim das contas se você entender o quem é o Amor, o que Ele representa e se conseguir colocar o que aprendeu em em prática, tá tudo certo. Se você não existir, também tá tudo certo. Continuo aleatória, mandando cartas pra desconhecidos online, esperando que alguém remotamente se identifique e compartilhe histórias. Ah... eu amo histórias! Quanto mais aleatórias melhor!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Antes das flores

Antes das flores, enxergue-me. Assim como Jesus enxergou toda a história daquela mulher que, ao meio dia, em pleno sol escaldante, envergonhada, buscava água no poço. Aquela mulher que se espanta com a cortesia de um homem desconhecido que consegue enxergá-la além do que seu estereótipo lhe dizia naquele momento, transformando sua sede em fonte. Enxergue-me a ponto de conhecer toda a minha história, podendo me oferecer uma alternativa aos meus medos e inseguranças.

Antes das flores, escute-me. Assim como Moisés escutou a argumentação daquelas cinco mulheres (Maalá, Noa, Hogia, Milca e Tirza) que pleiteavam seus direitos e pela primeira vez na história, através de palavras sensatas (e do favor de um Deus considerado machista por muitos), garantiram às mulheres daquele povo o direito à herança de seus pais. Escute-me quando clamo pelos meus direitos. Escute-me quando sou sensata. Escute-me quando apresento razões suficientes para mudanças.

Antes das flores, sinta-me. Assim como aquela mulher que foi sentida em meio à multidão e curada de sua doença que a consumia há anos. Sinta a minha fé, sinta a minha persistência. Veja em meus olhos que não consigo mais me esconder entre a multidão, que é necessário sair da minha zona de conforto para que me reconheçam. Sinta-me e insista para que eu me identifique como sou: mulher.

Antes das flores, perdoe-me. Assim como Jesus perdoa a mulher que é trazida a ele por que adulterou. Deixe suas pedras e julgamentos e consulte a própria consciência. Sente-se no chão e continue a escrever na terra, trazendo-me o espanto por me sentir valorizada, ainda que saiba que eu tenha errado. Despeça-se de mim sem condenações, oriente-me a não errar mais.

Antes das flores, encontre-me. Assim como o rei Lemuel procura a mulher virtuosa descrita por sua mãe. A mulher que é muito mais valiosa do que as riquezas da terra. A mulher que é sim independente, que sai para negociar e lucra, mas não pela força nem pela chantagem e sim pelas palavras e gestos agradáveis. A mulher que diz palavras sensatas, que se veste bem mas que também enxerga as necessidades do próximo. A mulher que planeja o futuro e não fica de braços cruzados por que sabe que, apesar de ter o coração em paz, é o seu trabalho que a louvará e o seu procedimento será o testemunho de sua conduta.

Antes das flores, respeite-me. Jamais acreditei que isso fosse algo que necessitasse ser dito, mas é.

Depois disso, ame-me e só então me dê flores. E se aceita um conselho final, mude um pouco: estamos cansadas de receber rosas vermelhas...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Os sinos

De longe ouço o eco dos sinos colocados em meu coração. Parece um som abafado e distante mas os ecos propagados dentro de mim ainda fazem barulho vez ou outra. As paredes do coração ainda retinem os sons dos sinos insistentes.

Aquele velho sino, empoeirado, enferrujado e o primeiro de todos a dar o ar da graça com suas notas agudas, é enorme e incrivelmente barulhento. Carrega as primeiras ofensas e felizmente não retrata mais nenhum rosto, somente os ecos das palavras indelicadas. Ecoa distante e silencia todas as vezes que olho no espelho e tenho a certeza de que aquelas palavras eram mentiras.

Outro sino, constante, insistente, me diz que não sou capaz. Que nunca faço nada direito, exalta minha incompetência. Retine dizendo que sou um fardo a ser carregado. Esse sino não ecoa mais, tive que escalar sua corda em meio a todos os barulhos ensurdecedores que me rodeavam e cortei-a. Era perigoso demais deixá-la a vista, ao alcance das minhas mãos...

O sino da rejeição, da mágoa de não ter sido digna de esforço, de não ser alguém especial, de não se sentir interessante ecoa sem parar. Suas notas são graves e barulhentas e servem de base para descrença que vem misturada a esses sons. Esse sino ainda ecoa vez ou outra, mas troco a descrença por inspiração e esperança e a melodia se transforma em algo harmonioso e cheio de vida ao invés de desespero.

Por fim, o sino barulhentíssimo do desinteresse, do descompromisso, do desafio de limites alheios soa sem parar. Julgamentos inexatos e maldosos surgem pra fazer com que suas notas tornem a melodia insuportável.

Aprendi a sentar embaixo de todos os sinos e observá-los. O barulho seria ensurdecedor se eu os tocasse de uma só vez. Decidi não me aproximar das cordas, evitando a tentação de balançá-las. Aprendi a não reviver velhos ecos, deixando-os livres para ecoarem na eternidade em forma de uma nova melodia.

Ah os sinos... tenho uma coleção deles, no entanto, aquele "está consumado" soa mais alto do que qualquer coleção particular de sinos egoístas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O não, teus braços e minha birra

Todas as vezes que os teus NÃOS ecoam nos meus ouvidos começo a agir feito uma criança mimada. Diante de um pedido tão importante aos meus olhos, a reação parecia inevitável. Bato os pés, me jogo no chão e choro repentinamente, fazendo um escândalo, uma tempestade em copo d'água.

Eu quero! Quero agora! Nesse momento!

Com todo o amor que eu jamais conseguiria entender, você me abraça e diz que vai ficar tudo bem. Meus braços inquietos te machucam, meus gritos ecoam nos seus ouvidos e minhas pernas se debatem em agonia na tentativa de que o momento de contrariedade passe mais rápido. Mas o teu abraço, que não consigo sentir enquanto estou em desespero, me envolve. Teu rosto inabalável olha pra mim como a criança que sou e diz que vai ficar tudo bem.

Aos poucos meu soluçar abaixa o tom, aos poucos meu coração desacelera, aos poucos vou me soltando e me desarmo: apenas os teus braços são capazes de me segurar.

"Mas era o meu sonho, era tão bom pra mim!"

Teus olhos fixos nos meus me mostram a verdade que eu jamais ousaria questionar. E então, como criança, sigo sem entender o motivo do não. Aos meus olhos aquilo é simplesmente um abuso de autoridade, uma maldade gigantesca diante de um simples desejo tão puro do meu coração de menina.

Com o passar dos anos, ainda me recordo do não. Ainda lembro quando sumi entre as prateleiras cheias de escolhas e me perdi de você. Estava diante daquilo, atraída por toda aquela beleza, estendendo as mãos como quem recebe o mais precioso dos tesouros, aproveitando cada centímetro de conquista da novidade mas absolutamente alheia aos perigos que ela trazia, exatamente como criança. Distraída. Focada apenas naquele momento, esquecendo de todo o resto. No entanto, com o seu amor tão irresistível, você me chamou de volta. Me abraçou e disse meu nome.

"Sossega criança, você não pode estar no controle de tudo. Deixa que eu decido o que é melhor pra você agora."

Espero, como criança, que um dia entenda o não. Que um dia entenda por que meu coração trapaceou e me enganou mais uma vez, enquanto eu desejava algo que nem sequer estava nos meus planos desejar. Espero que um dia eu me encontre novamente em frente à mesma prateleira e que possa dizer sem medo que o impedimento para que eu me lançasse ao desconhecido desejo do meu coração foi a melhor opção. Foi para meu bem. Sei que a ferida causada por um breve período de tempo cicatriza muito rápido, mas a ferida imputada todos os dias corrói lentamente as esperanças de cicatrização.

Não há dúvidas em meu coração e muito menos em minha razão de que você me ama. De que estará ali para cuidar de mim, mesmo que eu decida agir como criança mimada e descontente: sei que os teus braços estarão ali pra me segurar.  O coração angustiado é sempre o mais sincero e o menos racional nas orações, mas é aí que entram os teus braços... Ah, os teus braços estarão ali, todas as vezes que eu me dispuser a correr na direção deles e é sempre o teu olhar de amor que me traz de volta à razão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Quando sou um refugiado de mim mesmo

Todas as vezes que negligencio uma necessidade, um pensamento, um sentimento e um raciocínio me transformo nesse refugiado de mim mesmo, deixando pra depois uma análise crua de quem me torno com o passar dos anos, dos dias, dos segundos.

Quando negligencio uma lágrima que não quer sair ou as incontáveis lágrimas que jorram sempre, não encontro a racionalidade dos sentimentos. Não me permito chorar ou me torno melhor amigo do choro, aumentando catastroficamente a angústia de estar perdido dentro de si mesmo.

Torno-me um estranho pra mim mesmo quando negligencio meu sentir em função da razão ou minha razão em função do sentir, esquecendo-me que, no fim das contas, sou um humano. Não uma máquina nem um personagem de um romance meloso e excessivamente dramático, mas uma pessoa. De carne, osso, raciocínio lógico e instintos primitivos.

Quando deixo de enfrentar problemas com raízes profundas e difíceis, quando minhas válvulas de escape são tudo o que me impede de pensar, que dopa minha sanidade mental, me deixando em um estado de letargia, só me torno capaz de encontrar refúgio em cantos estranhos da mente, quilômetros distantes de quem sou.

Quando tudo o que resta são desculpas esfarrapadas para não tentar ou quando tento demais, me enchendo de responsabilidades e compromissos que não permitem paradas para entender qual é a vida que preciso e quem almejo ser, me torno só mais um afogado num mundo cheio de gente apressada que não tem tempo de prestar atenção em detalhes que fazem toda a diferença na rotina.

Quando não me permito sonhar ou quando tenho sonhos mas nada faço para que se tornem realidade, sou um estranho em meu próprio traje de carne.

Quando não consigo escutar uma opinião contrária às minhas e não entendo que cada um decide a vida que quer pra si mesmo, refugio a outra pessoa dentro de mim, querendo protegê-la de si sem necessidade alguma. Esqueço que, ao invés de querer protegê-la, devo entender os motivos de suas opiniões e ser suporte, não prisão.

Quando tento me encaixar em realidades que não me servem, não completam, não acolhem, não entendem, me transformo num estranho viajante do mundo de outra pessoa, deixando meus próprios caminhos pra trás.

Tudo isso parece um papo de gente egoísta, que só olha pra si mesmo e não pensa nos outros, mas a realidade é bem diferente. Quando sou um refugiado não encontro lar em lugar nenhum, não consigo conviver com ninguém, não sei qual direção indicar para os que estão ao redor por me perder em meu próprio plano cartesiano. É certo que ainda perdido consigo alcançar alguns destinos, mas certamente não alcançarei os mais importantes. Fugir de tudo isso apenas me transforma em um refugiado de mim mesmo, sem lar nem direção, caminhando a esmo em um deserto estranho que ninguém pode ver.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Retrospectiva de uma estranha viajante

Esse é um dos relatos mais difíceis que já fiz até hoje. Mais difícil que meu relatório final de iniciação científica e mais difícil que os textos duros e pesados que tomam forma quando sentimentos já não dão conta de segurá-los.

2016 me deu uma estranha sensação de nada, de estar flutuando sem saber exatamente o que está acontecendo, mas certamente entendendo que as coisas estão acontecendo rápido demais. Acho que foi exatamente por isso que durante os últimos meses desse ano absurdo preferi estar ausente. Inclusive de mim mesma.

Entra ano e sai ano e as notícias que acompanho se tornam cada vez mais absurdas. 2016 foi o ano de desastres (especialmente humanos) chegarem com toda força. Impunidade em níveis inacreditáveis, um desconexo quadro de acolhimento falso e hipocrisia vívida, estampada em qualquer lugar que se possa enxergar. Meu coração se quebra a cada notícia, a cada ataque ou bombardeio, a cada aniversário de conflitos irracionais que transformam realidades de pessoas com carne, osso e sentimentos exatamente como eu em fugitivos e refugiados. Entre outros motivos, Alepo não deixou que eu escrevesse algo sobre o Natal. Um pesar profundo e denso se instalou sobre a minha alma, ainda que não tivesse acompanhado de perto todas as notícias. Vários pesares se juntaram e em meu Natal só conseguia pedir para que aquele bebezinho trouxesse a paz novamente. A paz pro meu peito, a paz pra Alepo, a paz pra quem estava precisando tanto.

Em 2016, o tal espírito de liderança que tinha dito na retrospectiva passada apareceu e me tomou de uma maneira que jamais esperava. Carreguei um peso nunca antes sentido que nunca imaginei que fosse sentir. A responsabilidade chegou, a correria me engoliu e tenho plena certeza de que dei o meu melhor em tudo que me propus a fazer. Queria que muitas coisas tivessem sido diferentes, que muitos erros tivessem sido vistos como um obstáculo a ser superado e apenas isso. Queria que as pessoas que me cercam não tivessem sofrido tanto com o meu excesso de pressão explodindo perto delas. Eu sabia que assumir responsabilidades me deixaria feliz, me deixaria frustrada, me deixaria com um sentimento de dever cumprido. Ver pessoas sob sua responsabilidade crescendo e se tornando melhores por motivos certos é algo extraordinário. Sensacional. De verdade. Por outro lado, é inevitável me lembrar de sentimentos que não queria ter tido, tristezas por contemplar erros e não saber o que fazer com eles. Medos que não tinham fundamento. Sentimentos complicados demais e que doeram e doem demais ainda. É certo que, dadas as circunstâncias e meu preparo emocional, estou sim preparada para algum cargo de liderança, no entanto, é mais certo ainda de que eu os evitarei. Me sinto extremamente agradecida por me rotularem como a "mamãe" da galera, por que era exatamente esse o meu alvo. Ser a pessoa que se preocupa sim com o trabalho a ser feito, mas antes de tudo com quem está fazendo esse trabalho.

Sou eternamente grata por que o amor se tornou algo palpável pra mim em 2016. Ele tomou a forma de 22 toneladas e 1138 sacolinhas de presentes. Ele tomou a forma de 280 universitários. Tomou forma com pilhas infinitas de sacolinhas de supermercado, um enorme outdoor e infinitas pilhas de panfletos. O amor se traduziu em ação, aquela linguagem universal do sorriso e do abraço tão conhecida em qualquer realidade. O amor tomou forma de conscientização. Em mais de 400 garrafinhas de água. Em mais de 7,5 toneladas arrecadadas EM UM ÚNICO DIA.

Em 12 anos de banco de igreja pude presenciar do amor em vários momentos mas em nenhum deles meu coração foi tocado dessa maneira. Eu sentia falta de presenciar a verdade da vivência do amor, a renúncia de tudo por um chamado de busca aos que são renegados e excluídos, a ação tomando forma ao invés das palavras. Eu não quero ver essa realidade acontecendo no Facebook ou no YouTube. Eu PRECISO SER ESSA REALIDADE. Por que, afinal de contas, o Verbo foi quem se fez carne para que agisse como nós e mostrasse que é possível. O Verbo habitou aqui para voltar nossos olhos para os renegados. Para os estranhos viajantes desse mundo. O Verbo mostrou que é possível se levantar do conforto de uma vida comum pra ser diferença na vida de quem não sabe o que é amor. De quem nunca soube como é se sentir seguro dentro de um abraço. A necessidade de ser eco desse Verbo pronunciado há tantos anos me fez acordar todos os dias.

Em 2016 aprendi muito mais sobre mim mesma estando num breve relacionamento. Da complexidade envolvida entre duas pessoas, da necessidade de almejar destinos semelhantes e da minha necessidade intrínseca de compartilhar acontecimentos simples. Da necessidade de valorizar ações muito simples antes mesmo de qualquer uma que seja grandiosa. Da necessidade de valorizar momentos felizes. Aprendi muito com relacionamentos alheios também, conheci casais maravilhosos que continuam a construir em minha mente (muito antes do coração) a ideia de amor conjugal. Aprendi que sim, as pessoas não vão entender que você pode sim ser plenamente feliz sem estar em um relacionamento. Aprendi que sim, muita gente não quer ficar sozinha por que não consegue ficar confortável em sua própria pele. Aprendi que sim, quando o assunto é relacionamento, existe muita gente babaca nesse mundo. Aprendi que fico infinitamente mais ferida quando a ferida é infligida a alguém que eu amo e que tudo o que acontece tem um motivo, que pode ser razoável ou uma piração de ideia sem sentido algum. 2016 foi um dos anos em que mais falei de amor aqui e isso tem sentido, já que todos os ambientes onde eu estava em 2016 eram tão parecidos com uma novela mexicana que tive medo de encontrar a Paola Bracho nos corredores da faculdade.

É certo que 2016 me surpreendeu demais, me entregando várias amizades importantíssimas e inesperadas, que surgiram dos motivos mais inusitados e me fizeram um bem danado durante o resto do ano. Desde fevereiro minha vida tem sido um eterno conhecer gente, muitas delas demonstrando tanto carinho e amor que juro, não soube lidar. Senti que deveria ter demonstrado mais amor, afinal, é tudo tão passageiro e 2016 tem me mostrado o quão importante é aproveitar cada minuto.

Aprendi que é um refúgio gostoso ter ao seu lado pessoas que pensam da mesma maneira, que te acolhem e te mostram a direção. Que te lembram onde é o lugar que você deve chamar de lar. Apesar disso, é absolutamente necessário se relacionar e entender de realidades diferentes das suas. Pensamentos completamente avessos de tudo que você tem como verdade, atitudes completamente reversas ao que você sempre almejou na vida. É extremamente importante entender realidades, afinal, já dizia Fringe: "Abra sua mente ou alguém vai abri-la pra você". Me segura pra não rever Fringe nessas mini férias

A faculdade continua me ensinando sobre estresse, tolerância e superação de limites. Foi um ano de extremo cansaço intelectual, de achar que jamais iria dar conta de cumprir as obrigações, de MUITAS noites mal dormidas e de MUITO nervoso com projetos e trabalhos intermináveis. É certo que odeio o WhatsApp por conta da faculdade. Odeio acordar às 6h30 da manhã com mensagens que foram mandadas de madrugada. Imagine o estranhamento de não ter NENHUMA mensagem nova no WhatsApp hoje pela manhã. Odeio estar no final de semana resolvendo problemas da faculdade. Odeio estar em feriados fazendo trabalhos da faculdade. O descanso e a vida pessoal são importantes, mas parece uma doença da nossa geração essa valorização de extremos. Ou o excesso te suga todas as forças e te deixa enlouquecido mandando mensagens na madrugada de um final de semana ou o completo desinteresse toma conta e alguém te carrega nas costas (ou te deixa na sarjeta). É errado. É estressante. É horrível. A começar por mim, precisamos encontrar um meio termo entre se perder na vida pessoal em prol do interesse profissional, de uma maneira ou de outra, valorizando demais uma ou a outra sendo que ambas são igualmente importantes.

Com os últimos dias desse ano chegando só consigo pensar em quanto estive em dívida. Comigo mesma, na realização de tarefas simples que melhorariam consideravelmente meu dia a dia, me ajudando na saúde (mental, emocional e física). Com meus amigos e familiares, por não ser a pessoa que precisava ser em vários momentos. Com a vida, por ter abdicado de várias coisas importantes em prol de outras nem tão importantes assim. De 2016, saio com saldo negativo. Não consigo ponderar esse sentimento de nada que persiste diante da realidade.

Apesar de tanta reclamação, uma notícia inesperada me trouxe alegria hoje. A notícia de que alguém que sofreu demais em 2016 e está prestes a realizar um dos maiores sonhos da vida no ano que chega. Uma notícia que talvez não significasse tanto se tivesse sido dada alguns meses atrás mas que hoje mudou tudo. Afinal, se 2016 foi o protagonista de uma realização de sonho desse tamanho, trazendo alento para um coração sofrido, ele não pode ter sido de todo mal. Ele só pode estar sinalizando que 2017 trará mais surpresas, mais alegrias, mais amor. 2017 pode ser o ano em que uma estranha viajante deixe de sentir o nada para voltar às origens e aprender com a criança que era o poder de simplesmente descobrir-se renovação. Dia após dia, sobre todas as coisas, renovar-se.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Sobre o amor: ele não é seletivo

Direto aos fatos: amor seletivo não é amor, é hipocrisia.

Amor seletivo é quando você decide quem quer amar por que lhe é conveniente. O verdadeiro amor não leva em consideração os benefícios encontrados pelo caminho. Não, você não tem o direito de amar só por que vai ganhar algo em troca.

Amor seletivo é quando você decide quem amar por trazer status. Por fazer bem pra sua imagem. Por te deixar bonitinho nas redes sociais.

Amor seletivo é quando a boca fala mas as atitudes estão vazias. Amor seletivo é uma desgraça, não é amor. A gente precisa parar de eufemismo nessa vida, precisamos começar a dar nome aos bois, do jeitinho que eles são.

Amor de verdade é tentativa diária, insistente, infinita. É preferir se partir para que o outro fique inteiro. É deixar o eu de lado, é querer sair dos holofotes o tempo todo. Amor verdadeiro é começar pelos defeitos, é suportar cada característica insuportável. É entender que todo mundo tem limitações e que tudo bem. É saber, do fundo do coração, que é impossível para nós, simples humanos, amar completamente, mas também é dar tudo de si para chegar o mais próximo disso.

O amor não se engana, ele sabe bem de todos os defeitos. O amor é tratar igualmente cada ser humano que está ao seu redor. É dar opiniões de maneira respeitosa. É entender que grosseria só machuca e que eu preciso sim levar os sentimentos do outro em consideração por mais que todo mundo berre o contrário. É ajudar o tempo todo. É não ter inveja do sucesso do outro mas celebrar e chorar de alegria com a conquista alheia. É buscar com todas as forças o interesse de outra pessoa. É gritar diante da injustiça. O amor, ele não é seletivo.

Amor de verdade é paciente o suficiente para calar-se durante o tempo que for preciso enquanto o mundo todo está berrando a plenos pulmões que amor é hipocrisia.

É o assunto de tantas canções, é o foco de tantas religiões, é o que traz sentido à vida. O amor anda duas milhas se obrigado a andar uma. É sensato o suficiente para explicar sobre sua complexidade. É persistente o suficiente para tentar diariamente, muitas vezes por dia, por toda uma vida. O amor é muito mais do que respeito, o amor é enxergar-se no outro e entendê-lo de maneira tão profunda como mais do que a si mesmo.

Não se engane: o amor não é seletivo. Isso é hipocrisia.

"O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

1 Coríntios 13:4-7

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Quando eu era criança

Quando eu era criança pensava que continuaria aprendendo tudo na velocidade acelerada e contínua para sempre, que nunca encontraria dificuldades para aprender e sempre seria elogiada pelas professoras ao longo da vida. Quando cresci e entrei na faculdade, descobri em mim um ritmo de aprendizado lento, difícil e arrastado. Sofrido. Ainda assim, apesar das aulas intermináveis e muitas caretas ao longo de cada uma delas, pareço ser reconhecida por alguns professores, até mesmo alguns que me reprovaram ainda sorriem para mim nos corredores da UFSCar. A criança que eu era sorri de volta para eles.

Quando eu era criança sonhava que poderia mudar o mundo. Todo ele, de uma vez. Não entendia a desigualdade entre as pessoas e, no início da adolescência, cheguei a pensar que somente algumas atitudes muito drásticas resolveriam os problemas do mundo. Agora que cresci descobri que eu não posso mudar grandes extensões do mundo sozinha. Que é impossível resolver todos os problemas do mundo. Nada do que eu faça sozinha vai modificar de maneira efetiva alguma realidade. Descobri, depois de crescida, que realidades são mudadas quando juntos fazemos algo para isso. A criança que eu era estaria muito orgulhosa hoje ao saber que descobri meios de mudar pequenas realidades.

Quando eu era criança, imaginava que aos 23 anos estaria morando fora de casa, formada em alguma profissão e casada. Eu era uma criança extremamente conservadora risos Agora que cresci, prestes a fazer 24 anos, ainda dependo do dinheiro dos meus pais e ainda falta um pouco para me formar. Agradeço a Deus todos os dias pela experiência libertadora e empoderadora de morar fora de casa. A criança que eu era queria estar casada aos 20 anos de idade, mas ela não sabia o quão rápido passariam os anos da adolescência e que, com o passar dos anos, a ideia de casar com essa idade era extremamente surreal para a adulta que ela se tornaria. Ela não desconfiava que o primeiro namorado demoraria tanto para aparecer e muito menos que relacionamentos sempre seriam uma parte deliciosamente confusa da sua existência. Agora que cresci, a imagem do casamento continua linda, adorável e doce, mas ela não é mais fundamental. A criança que eu era teria dificuldades para compreender a sensação de ser completa sozinha. Ela jamais acreditaria em mim se eu lhe dissesse que ela sorriria todos os dias para o espelho por saber que é amada. Ela jamais acreditaria que estava tão perto de se tornar uma engenheira. Ela ficaria muito brava ao saber que com quase 24 anos, sua futura eu, mesmo sendo habilitada não dirigia. Eu também, eu também...

Quando eu era criança, conheci os processos de tratamento da água e participei de campanhas em prol do meio ambiente. Meu coração batia mais forte e de algum modo eu desconfiava que aquele seria meu mundo mágico quando adulta. Quando via na televisão desmoronamentos e enchentes já sabia que era ali que tinha que trabalhar. Hoje, crescida, quando minhas aulas preferidas correm, só consigo lembrar daquela menininha curiosa com os olhos brilhando ao ver que poderia melhorar a vida de muita gente simplesmente exercendo uma profissão de maneira digna.

A criança que eu era ainda existe e é reflexo do que sou hoje. Esse relato é apenas pra lembrar que você deve satisfações à criança que foi agora que se tornou adulto. Você corresponde às expectativas que tinha?


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Que das minhas feridas saia poder pra curar

Por muitas vezes, em longos períodos de tempo, minha mente flutua diante de situações normais e minhas reações ficam engessadas. Não parei para pensar. Não parei. Quando essa flutuação estranha acontece venho aqui. Lembro das idéias engavetadas e escrevo. Em uma sexta a noite, por que não?

Tanto tem acontecido por esses dias, tanto caos, tanta responsabilidade, tanta flutuação. Quanto mais me disponho a escutar mais histórias encontram meus ouvidos de variadas formas. Algumas vêm como confissão nos chats de conversa online da vida, outras alcançam meus ouvidos num almoço descontraído e tantas outras pergunto se poderia ouvir. Algumas duram horas, outras minutos e outras tomam meu coração nos textos da internet exatamente como esse. 

É certo que eu tenho as minhas feridas e cicatrizes que apenas Deus conhece. Elas são profundas e cascudas... Ah, se vocês soubessem. Quem vê a superfície realmente não entende e nunca compreenderá. Nem eu mesma compreendo, mas cada um sabe qual é a parte quebrada da sua existência. Aquele canto esquisito que escondemos, esquecemos e arquivamos junto com todos os sentimentos incômodos que não se esvaem se não forem encarados de frente. Todos nós temos sentimentos secretos que doem, resta saber o que fazer com eles.

Percebi que todo o sofrimento tem sim um propósito maior, seja este nos perder, nos encontrar, nos transformar ou matar algo dentro de nós. Nenhum sofrimento é vão mas não é sempre que conseguimos enxergar através dele. Não é sempre que entendemos que a tempestade tem um fim. Também percebi que é impossível colocar sofrimento na balança. As histórias que pude ouvir me soaram tão terríveis e distantes da minha realidade que eu jamais saberia reagir aquilo e talvez se tivessem acontecido comigo me seriam insuportáveis. No entanto, cada um tem sua medida pra dor, cada um reage de uma forma ao sofrimento.

Aprendi a pedir, diariamente, para que eu (ou quem está ao meu redor) possa olhar o sofrimento de maneira diferente. Aprendi que não adianta ser poupada nem entrar em uma redoma: quem não se machuca jamais vai saber o quão fantástico é o processo de cura de uma ferida. Quem não se submete às situações difíceis não amadurece. Hoje peço que das minhas feridas saia poder pra curar outras, que minhas experiências estranhas e tristes gerem esperança aos outros ao invés de dor em mim.

Enquanto aprendo a compartilhar as grandes pequenas dores que me doem, sigo encontrando feridas com potencial para curar. Cada hora "perdida" me lembra que nessa jornada não posso parar. Sou colecionadora de histórias, minhas ou dos outros, mas sempre cheias de feridas... por que quem precisa de médico e curativos são os se reconhecem doentes e estão frágeis. É para eles o poder de cicatrizar dores que sempre vem do Amor, aquele me foi dado primeiro. Esse Amor que cura é para os debilitados e miseráveis... quão grande é minha alegria ao receber diariamente e de maneiras inesperadas essas doses de cura.